Pelos olhos do lendário engenheiro automobilístico Carroll Shelby (Matt Damon), que idealizou os carros mais potentes do mundo – Shelby Cobra, Shelby Daytona e Mustang Shelby – , o filme Ford vs Ferrari conta a história do destemido piloto Ken Miles (Christian Bale) na década de 1960. A narrativa tem 50 anos, mas o pano de fundo é o mesmo de hoje em dia: o desafio da montadora americana Ford de manter a liderança e o pioneirismo diante das sucessivas transformações da indústria automotiva.

De acordo com a trama, que em seu fim de semana de estreia arrecadou mais de 31 milhões de dólares nas bilheterias norte-americanas, a Ford Motors, que passava uma imagem pouco sexy, decide entrar, no início da década de 1960, no mundo das disputas automobilísticas. O circuito eleito foi o das 24 horas de Le Mans, na França, cujo líder absoluto da época era a italiana Ferrari.

O projeto surgiu de um executivo de marketing após ultimato de Henry Ford II, filho do fundador da marca e CEO do grupo. “Tragam-me uma ideia boa para alavancar a empresa ou nem apareçam para trabalhar amanhã”, teria dito aos funcionários da linha de produção em Detroit, Michigan.

Shelby já havia vencido a exaustiva e emblemática prova francesa pela Aston Martin e foi contratado para conceber o carro que poderia levar a Ford à vitória.

No desenrolar da trama, fica claro que os desafios do setor não se restringiam à Ford. À época, a Ferrari estava à beira da falência e a montadora norte-americana chegou a negociar sua compra. Enzo Ferrari teria se sentido ultrajado pela oferta – que previa controle por parte da Ford – e acabou aceitando a proposta de Giovanni Agnelli, fundador e chefe da Fiat.

Remake

A história parece atual? Em maio deste ano, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) apresentou proposta de fusão com a Renault, que causou enorme resistência por parte de sindicatos e do governo francês, que detém 15% da montadora. A negociação não foi para frente e agora a FCA conversa com o grupo francês PSA Peugeot-Citroën para uma fusão.

Este é apenas um dos movimentos das montadoras para sobreviver em um cenário de revolução da indústria automotiva. As empresas buscam formas de viabilizar o veículo do futuro: elétrico, autônomo e altamente conectado. E extremamente caro de se produzir em larga escala.

No ano passado, a BMW anunciou parceria com sua principal concorrente, a Mercedes-Benz, para desenvolver carros autônomos. A Renault e a Nissan têm uma aliança, há 20 anos, para escalar a produção e compartilhar know-how de veículos elétricos. Ambas são referências com os modelos Zoe, da marca francesa, e Leaf, da montadora japonesa.

A Ford também tem se movimentado para não ficar para trás. Recentemente, a companhia anunciou o encerramento das atividades da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, que produzia majoritariamente caminhões. Segundo a companhia, a medida faz parte da estratégia global do grupo de sair do negócio de veículos pesados e concentrar esforços em seu core business, o de veículos leves.

Enquanto isso, a montadora traça novas estratégias para o futuro. A mais recente delas envolve uma possível aliança com a Volkswagen para o desenvolvimento de picapes de forma conjunta, o que ainda não foi concretizado.

Ainda nesta semana, a Ford anunciou o lançamento do Mustang elétrico. Embora seja um SUV, o Mach-E tem o nome do icônico esportivo para atrair o consumidor que hoje tem opções mais sedimentadas no segmento como o Model 3, da Tesla.

Do nascimento do Mustang GT40, concebido por Shelby e Miles para as pistas de Le Mans, até hoje, inúmeras transformações ocorreram na indústria automotiva. Outras tantas estão por vir e ninguém parece ter – ao menos neste momento – a fórmula do sucesso. Uma certeza: o público adora acompanhar as disputas do setor, dentro e fora das pistas.

Fonte: exame.abril.com.br